As declarações em Belfast e o respetivo contexto
Durante uma intervenção na Queen’s University Belfast em outubro de 2026, o ex-presidente norte-americano Barack Obama participou num debate moderado pela jornalista Susan McKay. Questionado sobre o conflito no Médio Oriente, Obama reconheceu que «o povo judeu, ao longo de milénios, foi oprimido, discriminado e assassinado» e sublinhou que «a Europa foi responsável por grande parte disso», o que levou os judeus a procurarem refúgio. Contudo, gerou forte indignação imediata ao acrescentar: «O que também é inegável é que tiraram terras às pessoas e foram excessivos. E essas pessoas, compreensivelmente, disseram: 'Isto é uma injustiça e quero a minha terra de volta.'»
Embora os críticos tenham repudiado veementemente a retórica de Obama, conforme noticiado pelo The Daily Wire e pelo The Jerusalem Post, a afirmação de que teria declarado explicitamente que a criação de Israel decorreu «unicamente» de refugiados europeus, ou de que teria negado formalmente qualquer antiguidade judaica, deturpa as suas palavras exatas. Obama fez referência a milénios de sofrimento judaico, mas a sua descrição reducionista desvirtuou o sionismo, rebaixando-o a um projeto de deslocamento de matriz europeia.
Continuidade histórica e aquisição legal de terras
A tese implícita de que o Israel moderno existe apenas porque europeus estrangeiros se apoderaram de território árabe contradiz os registos históricos, jurídicos e demográficos documentados pela Jewish Virtual Library:
- Presença autóctone milenar: Os laços judaicos com a Terra de Israel estendem-se por mais de 3.000 anos, tendo origem na Antiguidade e subsistindo ao longo de séculos de domínios romano, bizantino, árabe, cruzado e otomano. Comunidades judaicas ininterruptas permaneceram em cidades como Jerusalém, Hebron, Tiberíades e Safed muito antes do surgimento do sionismo político moderno.
- Aquisições de terras documentadas: Os pioneiros judeus anteriores à criação do Estado não confiscaram terras; adquiriram parcelas em total conformidade com a lei através do Fundo Nacional Judaico e de entidades privadas. Os registos prediais otomanos e do Mandato Britânico comprovam que a esmagadora maioria das terras judaicas foi comprada a preços inflacionados a proprietários árabes ausentes e a vendedores locais.
- Realidade demográfica: O moderno Estado de Israel não foi povoado exclusivamente por judeus europeus. No rescaldo da Guerra da Independência de 1948, mais de 850.000 judeus foram expulsos ou fugiram da violência promovida pelo Estado por todo o mundo árabe e pelo Norte de África. Hoje, mais de metade dos judeus israelitas descende desses refugiados do Médio Oriente e do Norte de África (mizrahim e sefarditas) que regressaram à sua terra ancestral.
Rejeição oficial da distorção histórica
As declarações de Obama em Belfast suscitaram prontas repreensões por parte de responsáveis israelitas e de observadores históricos. O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu respondeu publicamente, afirmando que «a nossa terra não é terra roubada» e reiterando que o povo judeu detém um direito ancestral e autóctone à região há milhares de anos, de acordo com o divulgado pelo Jewish News Syndicate.
O sionismo representou o movimento de libertação nacional e autodeterminação de um povo autóctone que regressava ao seu berço histórico, e não uma empresa colonial estrangeira. Embora as declarações de Obama em Belfast tenham provocado uma indignação justificada ao enquadrar a soberania judaica como uma apropriação indevida de terras, alegar que negou expressamente toda a antiguidade histórica ou que definiu Israel puramente como um constructo europeu adultera as suas formulações concretas, ignorando os sólidos alicerces jurídicos e ancestrais do Estado judaico.